Não há santos, não há inocentes



          Os limites impostos pelas pessoas serão suficientes para manter o seu espaço livre ou chegarão ao ponto de interromper o alcance real das suas conquistas?
        O quanto é queda ininterrupta rumo ao infinito ou evolução pura e simples em velocidade constante e irresponsável?
         Os danos causados em cada um os terão como responsáveis ou atirarão a culpa sem nenhum pesar nas costas de terceiros, do universo ou do supremo? Supremo Ser Divino, não a suprema corte brasileira, diga-se; porque aí ninguém aguentaria!
          Uns vendem a ideia de que a falta de responsabilidade rende belas e grandes emoções, e instigam seguidores a realiza-las, sem mencionar o fato importante de que alguém sempre pagará a conta. Resta saber se vale a pena viver carregando a culpa pelas consequências desses atos egocêntricos para sempre.
      Outros vendem ideias contrárias, em que uma vida frugal, contida, suprimindo prazeres em nome de um futuro desconhecido. Guardar para utilizar em um momento chave no qual todos os outros estejam por baixo soa bastante sádico e cruel, mas desaparecer sem poder desfrutar do que guardou parece ainda mais estúpido.
          Não há santos. Não há inocentes. As inúmeras prateleiras estão recheadas com diversos e diferente pecados e culpas, hipocrisia inclusive.
          Vive-se tempos sombrios e confusos, em que grupos tentam subverter a ordem a qualquer preço, destruindo por completo o mundo como o conhecemos, eugenizando os ultrapassados para dar lugar a novos dogmas, novos seres em um novo e sombrio planeta.
          O início do fim já passou. Estamos no meio de um fim confuso e aterrador.


 

Marcelo Gomes Melo
A vida incontida, precariamente mantida



- Como é que você não chora? 
- Não há mais lágrimas em mim.
- Então é como se você carregasse um deserto dentro de si, e eu um oceano.
- Um lago, eu diria. Escuro, misterioso, parado, exibindo uma falsa calmaria enganosa, perigosa.
 - É assim que me enxerga?

 - Eu fui muito além disso. Já mergulhei e sofri todos os açoites possíveis. Todos os prazeres suaves e irrestritos também.

 - Como se sente?

 - Como alguém que retornou das profundezas emocionais e voltou a respirar ar fresco, mesmo que sob um céu cinzento imutável.

  - Isso nos desconecta?

  - Pelo contrário, evidencia a impossibilidade de rompimento dos laços que nos unem. Isso parece claro nos piores momentos.

  - Você parece seguro.

  - Preso às minhas convicções. Longe de vê-las funcionar plenamente, por erros meus, por diversas outras convicções diferentes das minhas. Posso apenas lidar com o que desejo, mas não controlo desejos alheios.

  - O passado não morre, o futuro é logo ali, não acredita em mudança, em melhoria?



- Não me preparo para pensar além do presente, isso ocupa o meu pensamento. Tento tomar decisões o tempo todo. O passado é uma sequência de arranhões que não saram por completo e me obriga a aliviar usando diversos paliativos.

 - Parece-me tão... Linear.
 - Ao contrário. É a linha da vida, cheia de altos e baixos.
 - Por fora você parece tão frio!
 - Contido. A secura desértica à qual você se referiu equilibra o comportamento, mas o meu cérebro atua fervorosamente. Você é mais gélida do que eu, mesmo parecendo ser mais humana.
  - Em que isso nos afeta?
  - Opostos se atraem.
  - Por isso vivem sobre o fio da navalha?
  - Assim é a vida a dois.
  - Somos capazes de lidar com isso juntos?
 - Em determinadas circunstâncias, sim. Em outras a tendência é sofrermos calados. Individualmente.
  - Sinto-me triste em horários diferentes. Os momentos felizes acabam por causar tristeza quando relembrados.
 - A tristeza é a cola que se insere na forma da felicidade para torna-la consistente.
  - O que irá acontecer conosco?
  - Navegaremos por mares bravios, tentando encostar as mãos mesmo estando em navios diferentes.
  - O que lhe mantém sóbrio vivendo nessa aflição constante?! Eu sinto que vou quebrar o tempo todo. Que resiliência é essa?!
   - Eu vivo alquebrado. Sou um homem em pedaços. Tudo dói. Mas estou vivo.
   - Nada resolve isso?
   - Amor.

 

Marcelo Gomes Melo


Para ler e refletir

Não há santos, não há inocentes            Os limites impostos pelas pessoas serão suficientes para manter o seu espaço livre ou cheg...

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